Início Memórias e Experiências O que Chateaubriand teve a ver com minha primeira viagem internacional?

O que Chateaubriand teve a ver com minha primeira viagem internacional?

Junho de 1966. A noite era daquelas que as nuvens correm encobrindo ora sim ora não o luar. Ninguém na rua, só o vento, a garoa e o frio. Uma Kombi para em frente a uma bela casa no Jardim Paulista, ou seria América, talvez Europa. Dela, descem cinco jovens cabeludos sendo dois barbudos a “la Che”. Tocam a campainha da casa (naquela época não existia porteiro eletrônico). Aparece um varapau do outro lado do portão.

– Quem é? A resposta veio em cinco vozes. – Queremos falar com o Dr. Chateaubriand. Logo já estávamos no hall de entrada aguardando seu secretário. Olha a confiança, pois naquela época os movimentos revolucionários já estavam dando às caras.

– Quem são vocês, pergunta o secretário todo aprumado? – Somos estudantes de engenharia da PUC e vamos fazer uma viagem cultural para o Uruguai e Argentina, e queremos ajuda financeira do Dr. Chatô. Naquela época a viagem clichê entre os universitários era de trem para a Bolívia.

Com uma cara de paisagem japonesa, daquelas que não se sabe se o secretário teria uma explosão de riso ou se nos tocaria dali aos pontapés, disse: – Vou falar com ele.
Abriu uma porta, a da biblioteca, e vi o Dr. Chatô sentado numa poltrona, ou era uma cadeira de rodas. O secretário falava, abaixava a cabeça e ouvia. Depois de uns bons minutos, ele voltou. – Dr. Chateuabriand falou que vai ajudá-los com passagens de ônibus até Porto Alegre.
– Mas nós vamos de Kombi! Novamente em cinco vozes.

Ao nos entregar o endereço onde pegaríamos os bilhetes, vi que o Dr. Chatô nos olhava indiferente. Fiz uma mesura e mandei-lhe um tchau de agradecimento bem alegre. Como resposta tive a sensação de que ele nos mandava encher o saco de outro. Isso se confirmou na despedida com o secretário. – Se não viessem aqui com essa bobagem de viagem cultural, Dr. Chateaubriand disse que daria as passagens até Montevidéu.

No dia seguinte, vendemos os bilhetes, fizemos um crowdfunding (que naquele tempo se traduzia por uma rifa cujo prêmio era uma caneta Sheaffer, e dois bailinhos), e assim aos 18 anos parti para minha primeira viagem internacional, em parte patrocinada pelo Dr. Chatô.Ilustração cajuzinho usada como ponto final das matérias da vmmv

(Na foto, Piru, Eu, Emilio, David, e Silva (que tirou a foto) já em território uruguaio)

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"Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado."

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