Mumbuca - Viramundo e Mundovirado
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Mumbuca

As dificuldades de se encarar uma viagem no poeirento deserto do Jalapão são recompensadas por pequenos prazeres como, adormecer contemplando um céu manchado de estrelas, procurar respostas para sua enigmática paisagem onde surge uma colossal duna amarela no meio do buritizal, ou sondar o milagre que deixou plano como uma mesa o topo da Serra do Espírito Santo. Ou ainda se perguntar por que essa água geladinha da lagoa translúcida borbulha e não deixa a gente afundar, e por que o mimoso capim dourado nunca perde o brilho?

Mumbuca

Foi por causa do belo artesanato feito com o capim dourado que cortamos uma porção do cerrado tocantinense. Percorremos estradas sinuosas e sem sinalização, perdidas entre formações rochosas, onde se desenham paisagens extremas, até chegar no povoado de Mumbuca. Distante 350 quilômetros de Palmas, sem atrativo turístico nem infraestrutura e apenas 40 famílias residentes, esse lugarejo tinha tudo para ficar esquecido no sertão de Tocantins. Só que as mulheres desse lugar remoto sabem costurar com o capim dourado. Fazem jarros, potes, cestas, pratos, sousplats, fruteiras, chapéus, caixas, mandalas, brincos, pulseiras e colares. Elas transformaram esse artesanato em patrimônio cultural e estão ajudando a inserir Mumbuca no mapa.

Mumbuca

A beleza de um lugar não se limita às suas paisagens; envolve também a natureza dos seus habitantes. Basta observar essas mulheres para se encantar com Mumbuca. Elas transmitem alegria. São expansivas, marotas… espertas. Cada figurinha! Verdadeiras personagens que só teriam a enriquecer nosso cinema, teatro e literatura.

“Sente o bafão”, brinca Evaniu, referindo-se ao calor já intenso, e olhe que mal acabava de amanhecer. Caminhando pela vereda, no final de setembro, época de sua colheita, percebo porque a produção é restrita e as peças muito valorizadas. Na verdade, o “capim dourado” não é bem um capim. É uma espécie de sempre-viva (Syngonanthus nitens) que brota nos solos úmidos às margens das veredas. Vegetação delicada tem hora certa para se colher.

Mumbuca

É rara a oportunidades de contato com esta verdadeira arte produzida em um dos rincões mais perdidos de nosso país. Ali, a tradição comanda: “Quando chuvisca na vereda, pode ir no dia seguinte que o capim brotou”, ensina Martina, que usa um pano vermelho enrolado na cabeça. Ela, Ana Claudia, Taine, Ilana, Marijane, Jivoene, Evaniu e Elizabete vão me ensinando os rituais da colheita. Dentre eles, usar um pano na cabeça, vestir saia, colher em grupo para afastar a sucuri e, sobretudo, bater o capim para espalhar as sementes maduras. O que faz dessas mulheres também guardiãs da natureza.

Mumbuca

E para completar tamanho encantamento, elas cantam sempre. Suas melodias ecoam e se misturam aos gritos das araras na imensidão do cerrado: “Nosso Jalapão tem algo que eu não posso deixar de falar/ É do lindo capim dourado que devemos preservar/ Colhendo na época certa e deixando a semente no seu lugar/ Para que o lindo capim dourado continue a brilhar”.

A colheita termina, vamos embora. Mas o encanto não.pontofinal

Texto e fotos: Heitor e Silvia Reali

Mumbuca

Mais informações:
Associação Capim Dourado do Povoado de Mumbuca, tel. 63-3579-1092

Povoado de Mumbuca, Mateiros, TO, cep 77593-000)
Para não se perder no Jalapão: Guia e turismólogo Flávio Silveira Ribeiro (63-3215-4957/98406-7438)

*Matéria publicada originalmente no site Viagens Plásticas do Viagem.Estadao

Heitor e Silvia Reali

Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado.

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