Van Gogh vive em Auvers-sur-Oise

Auvers-sur-Oise

Van Gogh vive em Auvers-sur-Oise

Casas onde pessoas notáveis viveram estão hoje entre os mais tocantes museus do mundo. A vila de Auvers-sur-Oise, porém, nos brinda com muito mais. Ali acontece uma experiência única: pode-se entrar no quarto onde Vincent Van Gogh viveu seus últimos meses que trancado por um século se manteve milagrosamente intacto; caminhar nos mesmos locais que ele percorreu, as casas que frequentou, e ver os cenários que instigaram suas obras primas.

Esse foi o motivo de minha viagem ao encantador vilarejo francês. E, mais, queria entender como alguém que pouco antes de chegar ali, passou meses internado em asilos, sofreu com a miséria, se enfraqueceu com a fome (pois preferia gastar em tintas), pode produzir quadros que exaltam a alegria da vida.

 

 

 

Auvers-sur-Oise

 

Fiz o mesmo percurso do artista: tomei um trem na Gare du Nord em Paris e quarenta minutos depois desembarco na pequena estação. Caminho duas quadras e já estou diante do Hotel Ravoux, onde Vincent ocupou o pior quarto que ficava na mansarda.

No segundo andar, dezessete degraus em madeira escura ladeados de paredes encardidas e indefinível cor entre verde e cinza me conduzem ao quarto. Desprovido de janelas, tem apenas uma claraboia no teto baixo.

 

Auvers-sur-Oise

crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Vincent viajou para Auvers-sur-Oise na esperança de curar seus nervos em frangalhos. Ali vivia Dr Gachet, médico homeopata que estudava ervas medicinais no tratamento da esquizofrenia, talvez a enfermidade de que padecia Van Gogh. Sob os cuidados do médico, nos primeiros dias ele revive. Incansável em 66 dias realiza 33 desenhos e 70 quadros luminosos de cores vibrantes – algumas das mais belas obras de arte da humanidade. A casa do Dr Gachet é um dos museus da vila, além do Museu do Absinto, com um jardim de ervas aromáticas que entram no preparo dessa bebida muito popular entre os artistas e escritores da época.

 

 

Auvers-sur-Oise

crédito: Viramundo e Mundovirado

 

No vilarejo sigo os mesmos passos do artista. O imagino amarrado ao cavalete quando ali soprava o mistral, vejo os campos cultivados de trigo, as pitorescas casas nas ruas de pedra, o castelo de Auvers, a sede da Prefeitura, e a igreja gótica. Van Gogh mudou para sempre o destino do local, contagiou pintores que expõem seus quadros em cafés ou ou grafitam paredes, e viajantes de vários países que caminham pelas ruas com um livro de reproduções dos quadros de Vincent nas mãos.

 

 

“Crows on the corn fields”, um dos últimos quadros de Van Gogh
crédito: Viarmundo e Mundovirado

 

 

No domingo 27 de julho de 1890 ele tenta o suicídio no campo de trigo, disparando um tiro no peito. Gravemente ferido caminha até o hotel. Dr Gachet é chamado, mas já não pode fazer mais nada.

Depois do enterro, Theo encontra no mísero quarto, a última carta que Vincent ainda não lhe enviara: “ No meu trabalho arrisco a vida e metade de minha razão nele se desfez”.

 

 

 

Auvers-sur-Oise

crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Anos antes, fiquei horas na fila do Museu Van Gogh em Amsterdã, para admirar os quadros pelos quais ele deu a vida. Mas, no vilarejo francês não existe uma só tela pintada por ele, apenas um velho chassi que está na mansarda, hoje museu Maison Van Gogh, tido ‘o menor museu do mundo’.

Então, em Auvers-sur-Oise acredito que algo de milagroso me aconteceu. Senti que realizei ali quase uma peregrinação, o mesmo que ir a templos sem ver os santos.

Deixei o vilarejo vivificada e fortalecida.

 

Auvers-sur-Oise

 

Museu Maison Van Gogh, Auvers-sur-Oise, France www.maisondevangogh.fr

Se quiser saber mais sobre o artista considere ler:

Cartas a Theo, Vincent Van Gogh, L&PM Editores

Van Gogh, de Paul Fierens, édition Braun & Cie

Van Gogh, Pierre Cabanne, Editora Verbo

Van Gogh ou o enterro no campo de trigo, Viviane Forrester, L & PM Editores

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Comentários

Heitor e Silvia Reali

Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado.