Encanto e terror em Botsuana
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Encanto e terror nas selvagens savanas da África

Botsuana

Encanto e terror nas selvagens savanas da África

Os old-style campings em Botsuana, na África, conservam o fascínio irresistível da aventura, e o inesperado encontro com as feras selvagens testaram nossos nervos

Botsuana

“Leões, rinocerontes, e hipopótamos, ahh vê-los livres na savana dourada! Vou remar no Rio Okawango, em Botsuana, que não deságua no oceano, ou em outro rio. Você sabe onde o danado se espraia livremente? Nas areias do deserto de Kalahari, formando o delta interior mais espetacular do planeta”. Estas palavras do meu eufórico companheiro de viagens, a bordo do Piper J-3 Cub com jeitão de sobrevivente da 2ª Guerra, contrastavam com as minhas: o que mais quero ver é a família dos suricatos, que fazem vigília de pé no cocuruto da toca escorando-se no rabinho. Assim, com expectativas desemparelhadas, aterrissamos na pista, que do alto, me sugeriu aquelas utilizadas por contrabandistas.

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Nas últimas décadas surgiu uma nova experiência desta África sem estradas nem cercas, indomável, e inexplorada, que propicia o encontro com os animais selvagens em seu habitat: os acampamentos Tented Camps que pontilham o delta. Consiste de, no máximo, seis a oito barracas (walk-in tented) permanentemente armadas sobre uma base de madeira. Espaçosas, têm um pequeno armário e duas camas de solteiro com grossas cobertas de lã, pois as noites são gélidas. Como durante o dia o interior fica escaldante, há várias janelas e duas portas grandes, uma de entrada e outra que dá direto no banheiro, feitas de tela, além de outra aba na mesma lona forte da barraca. Todas se fecham com reforçados zíperes de metal. Na parte posterior encostado na barraca, fica o banheiro: amplo, piso forrado de esteiras, paredes de bambu de 1,80 metro de altura, e com teto a céu aberto. Aves, babuínos ou girafas podem xeretar a vontade. Mas, nenhuma barraca invade a privacidade, pois são posicionadas bem distantes umas das outras. As refeições são servidas em um quiosque, o boma, prazerosa área comum, onde os hóspedes consultam livros para se inteirarem sobre as feras malignas que circulam livres no quintal.

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As instruções ao chegarmos já quase no final do dia são claras e reforçadas: é proibido andar fora das trilhas do acampamento, e durante a noite o visitante só deve deixar sua tenda acompanhado de um bushman, expert em animais selvagens. Durante o jantar o guia britânico Jez Lynce (olha aí outro predestinado, Simão!), anuncia que termos muitas chances de observar os chamados big five (os “cinco grandes”: elefantes, leões, rinocerontes, búfalos e leopardos, julgados não por seu tamanho, mas pelo risco que representam ao viajante), além de javalis, cães selvagens, crocodilos, de cervos com galhadas do mais puro design e aproximadamente 350 espécies de pássaros, como a águia pescadora, e o pássaro tecelão de peito amarelo-ouro. Embalados com a promessa de aventura e com o reforço etílico dos bons vinhos sul-africanos servidos no jantar, fomos direto para nossa barraca.

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“Vamos curtir selvafricamente nossa primeira noite na savana! Só vou deixar as telas contra os mosquitos. Que entre a lua e os ventos tragam todos sons e aromas”! Ahh, sempre over, este meu par, pensei, mas, meio morta de canseira, resolvi deixar quieto e, de imediato, dormi. Pouco. Fomos despertados pela mais tenebrosa voz que se pode ouvir por aquelas bandas: o atroador urro de um leão.

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Mas, quanto longe ou terrivelmente perto ele estava? No meio de ‘avóssuplicamosgemendoechorando’, ouvimos passos ao redor da barraca. Em uma fração de segundos, fechamos rapidamente tudo o que poderia ser fechado, e nos acocoramos na mesma cama sob os cobertores. Começamos a prestar uma atenção exasperante aos barulhos, quando ouvimos, ai, ai, ai, ai, ai, um pulo pesado e passos sobre a esteira do banheiro. Olho confiante para o Heitor, pois ele – sempre – sabe o que fazer, em situações de emergência, mas, perplexa, o vejo munido de um canivete suíço. Xiiiii, a coisa tá braba. Percebo que ele me fala algo que só adivinho pelo movimento dos lábios, pois os quatro mil integrantes da bateria da Mangueira estavam em apoteose no meu peito. Santo Antoninho de minha devoção, ouço sininhos agora? Serão os anjos? Mas já? Heitor iluminou com uma lanterninha na direção dos dlindlindlins, e vemos as chapinhas de metal da ponta dos zíperes sendo forçadas por uma monstruosa, amarela, e peluda pata. Agora, um rabo roça os pés da cama. Para nosso horror, o monstro pula na cama ao lado, rosna deixando à mostra os vampirescos caninos, se alonga, … boceja e se acomoda. Não, não era um leão, sem dúvida era um felino, maior do que um gatão e menor que um leopardo, mas, como saber sua ferocidade? Nós o vigiamos a noite inteira, e assim que amanheceu ele ronronou e saiu de mansinho pela direita. Nós, chispamos pela esquerda. “Oh, are you early people”! Acordaram cedo, sorri Jez ao nos ver. Contamos sobre nosso hóspede metido a besta e o identificamos em um livro. Era o cerval-africano, e Jeff sacou que, perseguido pelo leão, o animal buscou refúgio em nossa barraca. E, se fosse um leão, o que deveríamos fazer? Ele nos respondeu com aquele sarcástico humor inglês: “Enjoy yuorself”!

Texto: Silvia Reali
Fotos: Heitor Reali

Quem leva: www.wilderness-safaris.com

Heitor e Silvia Reali

Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado.

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