De lá pra cá: como viajam os nomes

Óbidos

De lá pra cá: como viajam os nomes

Bom mesmo seria ouvir esta história, pois na leitura nos privamos do prazer de escutar os sotaques dos portugueses e dos paraenses, protagonistas de um fato único. E também porque soam como um carinho os diminutivos de ambos linguajares. Mas, como o leitor ‘está a ler’, recomendo a companhia de António Zambujo, cujas canções falam de coisas de quem teve, assim como eu, a alegria de conhecer as aldeias portuguesas.

Óbidos

O que abriu meu coração para essa viagem a Portugal foi um poema de Carlos Santos, que li na Belém brasileira:

“E há um quê de Portugal

no depois da janela, no que vejo além…

E porque há Lisboas no quintal

da minha atemporal Belém”.

Ainda mais. Em minhas andanças pelo Pará, contei ali, não uma, sete, oito, dezoito, mas quase trinta cidades com o mesmo nome das portuguesas. Exemplos? Ourém, Salvaterra, Óbidos, Barcarena, Condeixa, Almeirim, Chaves, Viseu, Odivelas, Porto de Mós …

Óbidos

Chego, afinal, em Lisboa. Mas o que desejo ver? Cidades tal e qual, vinho da mesma pipa? Ainda não sei; a única certeza é a de que não farei comparações, e tampouco vou ‘puxar a brasa para minha sardinha’.

Inicio meu percurso de apenas uma hora de carro até a vila cujo nome mais me curiosou: Óbidos.

Perguntadeira, fico sabendo que em épocas remotas os romanos chegaram aqui, curtiram tanto o sítio que fundaram uma vila, e para ninguém mais entrar ergueram um muro em volta. Já o nome soava o que era: Ópido – cidadela fortificada.

Pequena e pitoresca, a aldeia intramuros abriga simpáticos largos com mesas e bancos, livrarias, lojinhas, ateliês de cerâmica, restaurantes e bares.

Ginja de Óbidos

 “Beba a ginja e coma o copinho” convida a placa do bar, referindo-se à renomada bebida feita de cerejas cor de bombom e servida num copo de chocolate. É bom? Pergunto só pelo gosto de ouvir o sotaque da rapariga: “É tudo de bom estô-lh’a dizer, quem bebe quer vir cá mais vezes”.

Os que foram desta Óbidos para fundar a Óbidos de além-mar levaram ‘os entrudos’ das folias carnavalescas portuguesas que lá mudaram de nome para ‘Mascarados do Fobó’, mantendo-se, porém, o costume de jogar farinha uns nos outros.

A Óbidos de cá do Atlântico: tem como principal estrada o Rio Amazonas e também nasceu como fortaleza para vigiar a entrada dos espanhóis em terras brasileiras

 

 

 

Nazaré

Sigo agora apenas 40 quilômetros em direção a Nazaré, no litoral.

Será que fé tem relação com Nazaré? O fato é que o nome tem raiz hebraica, e o local original, em Israel, é onde nasceu Maria, mãe de Jesus.

Já o batismo da cidade portuguesa se deu graças a um milagre, quando Dom Roupinho, perseguindo um javali, se viu na ponta de um penhasco. Evocou a Virgem, e seu cavalo estancou bem na beirinha. Em agradecimento, ele mandou erguer uma capela que daria origem ao vilarejo.

Nazaré

Nazaré oferece visões inesperadas. Parte da vila parece agarrada ao penhasco. Mas depois se espraia porque do alto se avista uma baía de formosura ímpar, d’um lado areia branquinha e mais casas claras de cal e telhados cor de laranja madura, e d’outro o azulíssimo do oceano. Na praia as mulheres dos pescadores, sempre vestidas de preto, há gerações secam ao sol sardinhas, chernes, e polvos, enquanto esperam pelo retorno dos maridos.

Nazaré

Do outro lado do penhasco, uma muralha de água que pode atingir 25 metros de altura se forma graças a um canion subterrâneo. As ondas avassaladoras que ali se originam recebem um nome sugestivo: canhão de Nazaré.

Já na paraense xará (palavra emprestada dos índios tupi), durante a procissão do Círio uma descomunal onda de gente acompanha Nazinha, como é carinhosamente apelidada a santa de Nazaré.

O Círio de Nazaré representado no popular ‘brinquedo de miriti’ (feito com talo do buriti): tem a santa na lapinha e os promesseiros que carregam na cabeça as graças alcançadas; e o comércio típico do bairro

 

 

Santarém

Na Santarém portuguesa cheguei depois de um percurso de 85 quilômetros e vou direto ao seu belo mercado, cuja fachada ostenta 55 painéis de azulejos que narram a história e os costumes da região. Na banca de ovos e queijos de Dna. Celeste, pergunto por que os moradores dali são chamados de escalabitanos. “Essa história é um enrascanço, tem repartidas versões. Uma diz que os romanos qu’se encantaram c’o nosso lugar à beira do Tejo, botaram-lhe o nome de Scalabis. Os mouros desbatizaram e trocam para Shanterein. P’ra nós virou Santarém. Agora, de lambujem dou-te a informação de que aqui viveu Pedro Álvares Cabral, que deu o nome de Terra de Vera Cruz ao vosso país”.

Santarém

‘A Cristianíssima’ é o codinome de Santarém, graças aos seus muitos mosteiros, conventos e igrejas. As procissões e os festejos religiosos sempre contam com a participação dos moradores.

Já os que vivem, além-mar, na outra Santarém, que fica diante do encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas, têm uma diferente versão para o nome. Ela me foi revelada enquanto eu fotografava um prato típico dali feijãozinho santareno com farofa molhada e bolinhos de aviú. O aprendiz de cozinheiro foi categórico: “foi que aqui vivia uma santa muito amada por nome Irene. Como era repetidamente evocada assim – Santa Irene, Santairem, Santarém… assim ficou”!

Na cerâmica das índias tapajônicas intrigantes animais imaginários; e a harmonia multicolorida dos produtos expostos no Mercado de Santarém

 

 

Alter do Chão

Outro nome que me trouxe a Portugal – Alter do Chão – fica a pouco mais de cem quilômetros de Santarém. Por conta de sua posição geográfica, os romanos fundaram a vila de Albelterium. Como alguns curtiam viver em riba da colina, e outros embaixo, a aldeia se dividiu entre Alterium do Alto (já simplificado por eles mesmos), e Alterium do Chão, esta a única que restou e que deu origem à pitoresca cidade.

Alter do Chão

Hoje um renomado Centro de equitação, reúne jovens vindos dos quatro cantos do país atraídos pela tradição de 250 anos da nobre arte da coudelaria. Ali também vive um personagem conhecido mundo afora, em particular do futebol: o Dr. Endireita, que apesar de nunca ter estudado, “arranja os ossos e ligamentos”. Ele massageia apenas com a ponta dos dedos, e “tudo volta ao sítio em dois minutos”, como garante.

Também fui conferir o sabor dos cogumelos graúdos que brotam nos campos de Alter do Chão. Puxei prosa para saber como os cozinhavam e de quebra ganhei uma aula de receita à portuguesa.

Alter do Chão

“Primeiro escolha-os bem frescos, e salte-os no azeite de oliva. O coentro à mão cheia vai na picadeira pra ficar bem fininho, mas para o cominho tenha economia. Junte vinho branco e uma cebola que se deve dourar bem. Quando bem lourinha vai um bocadinho de pimenta e de noz-moscada só para perfumar gostoso. Polvilhe os cogumelos com essa mistura, mais umas lâminas de alho, e segue ao forno p’ra ficar tudo bem apuradinho.”

E há quem deixou um registro equivocado sobre o nome da Alter paraense foi o naturalista inglês Henry Bates: “ o povoado de Altar (sic) do Chão no Pará deve esse nome singular a uma colina de cume chato com o aspecto de um altar-mor das igrejas católicas portuguesas”.

Em Alter do Chão, no Pará, bem no meio do rio emergem praias que parecem feitiço de sereia

 

 

 

Alter do Chão

Em hora e meia de viagem chego em Soure, onde a suntuosa culinária portuguesa traz iguarias ‘sem mãos a medir’, que recomendo: sopa de pedra, carneiro, arroz de galo de cabidela, e morcela. Por sobremesa o doce barriga de freira. Fofo.

Devota, a vila preserva o castelo que foi a primeira sede da Ordem dos Templários em Portugal.

Soure

Ouvi diante da matriz de Soure como as palavras e lendas viajaram para a distante Marajó: banzeiro é quando as águas perigosas se cruzam em direções opostas, e deixam os ocupantes ‘banzados’, e que ‘as mariposas’ são encarnações de bruxas.

Azulejos antigos portugueses

Na ilha brasileira um gurizote remedando os marujos portugueses me contou a escolha do nome: “como chamaremos a esse sítio ermo, perguntou o comandante da nau lusitana. Soure, gritou um gajo. Não vês que a água fervilha de jacarés tal qual a minha aldeia Soure quando os romanos ali chegaram? Para eles os bichos eram chamados de saurium, que ficou Soure pra nós”.

Na Soure marajoara há manadas de búfalos, frutinhas silvestres como cutite-cutitiribá, bacuripari, umari. E morenas de pele cor de jambo que dançam sorrindo o carimbó

 

 

Belém

A última etapa de minha viagem em terras lusitanas fica a 179 quilômetros de Soure: Belém, às margens do Tejo, cujo nome nos meus livros escolares já soava como epopeia – “Do Tejo vai-se para o mundo”.

Ali o Monumento aos Navegantes tem a forma de uma caravela estilizada, e no piso, feito em calcário de liós nas cores branco, preto e vermelho zarcão, estão reproduzidos ao redor da Rosa-dos-Ventos uma sereia e um peixe mitológico entre caravelas.

Torre de Belém

Outro belo monumento na mesma freguesia é a Torre de Belém, que me sugere um castelo medieval. Cruzo agora um extenso jardim e chego ao Mosteiro dos Jerónimos, onde está o jazigo de Fernando Pessoa. Na lápide, aliás, estão também seus outros heteronômios: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Sabe o que mais há ali pertinho? Os Pastéis de Belém, com recheio cremoso que se desmancha na boca, polvilhado de canela, e doçura na conta certa.

Contrastes: na Belém brasileira, a fartura dos rios e matas está presente no mercado Ver-o-Peso; e uma amostra de “Lisboas no quintal…” – o Palacete Pinho decorado com coloridos azulejos portugueses

 

 

Belém

(foto7790)

E agora? Agora vou-me embora! Fico devendo as restantes xarás. Um dia, retomo. Por hora digo que esta viagem foi fonte de prazer e descobertas. Brasil e Portugal têm muito mais em comum do que 30 cidades batizadas com o mesmo nome. Têm as raízes, a fé, unem-se na amizade, na arquitetura, nos sobrenomes, nos provérbios, na poesia. E naquele não sei quê, que não se decifra apenas com o olhar – porque em certos recantos do Brasil pode sempre haver Lisboas no quintal…

Portugal

Onde ficar:
Em Lisboa: Hotel Dom Pedro Palace, no bairro das Amoreiras www.dompedro.com
Lisb’on Hostel, Rua do Ataíde 7, Chiado, Lisboa, www.lisb-onhostel.com
Em Alter do Chão: Hotel Convento D’Alter www.conventodalter.com.pt Primoroso na hospitalidade e na gastronomia

Quem leva:
Não dá vontade de conhecer mais sobre esse país? Mas, se você pensava em outro destino europeu, “puxe a brasa para sua sardinha”, e aproveite o stopover da TAP, que permite ficar até três dias sem taxas, e descubra Portugal (flytap.com/Portugal/pt/stopover).

*Matéria pulicada originalmente no nosso blog Viagens Plásticas do ViagemEstadao


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Heitor e Silvia Reali

Viajamos para namorar a Terra. E já são 40 anos de arrastar as asas por sua natureza, pelos lugares que fizeram história, ou pela cultura de sua gente. Desses encontros nasceu a Viramundo e Mundovirado.